Aos vinte e cinco dias do mês de julho do ano de 1877,
reuniran-se na Rua de São Jose nº 16 (Atual Rua Libero Badaró),
residência do Coronel Antonio Prost Rodovalho.
Um grupo de cavalheiros
que resolveram formar uma
companhia voltada a realizar um
grande melhoramento no sistêma de abastecimento
de água e esgoto da cidade
de São Paulo. Desta reunião ficou acertado
que seria organizada a COMPANHIA CANTAREIRA E ESGOTOS. Em 1877, a palavra "CANTAREIRA" significa um Poial para cântaros, ou seja o local onde se faz o abastecimento de cântaros, uma fonte com reservatório de água. A Companhia foi organizada em 5000 ações no valor nominal de 200$000 Reis cada uma. Em 22 de julho de 1878 lavrou-se em cartório a Escritura pública da companhia. E tiveram inicio os estudos e projetos para construção de uma represa no alto da serra, visto estarem esgotadas as fontes de abastecimento de água da cidade, Tanque Reúno (Ribeirão Itororó) na atual Av. 23 de maio, e Tanque Saracura (Ribeirão Saracura) na atual Av 9 de julho. Obs. Nesta época as residências da Imperial Cidade de São Paulo não dispunham de água encanada. Existiam apenas fontes públicas em algumas praças da cidade, onde a população se abastecia de água. Para se construir um reservatório no alto da serra da Cantareira a 900 metros de altitude, existia um problema. Seria necessário primeiro construir caminhos ou estradas no meio da mata, e como ainda não existiam caminhões, o material e as pesadas tubulações de ferro teriam de subir a serra arrastadas por juntas de bois. Em 1892, de acordo com a Lei numero 62 de 17 de agosto a Companhia Cantareira foi encampada pelo Governo do Estado de São Paulo. Os acionistas tiveram uma indenização arbitrada no montante de 6.829:546$663 Reis; e o governo assumiu as dividas de 448.000$000. Na época a Cia. Cantareira supria a cidade de São Paulo com 3 milhões de litros de água por dia, atendendo 6224 prédios com água e serviço de esgoto, com água oriunda dos Ribeirões do Ypiranga e Tanque Reuno (Liberdade). O Governo imediatamente deu inicio aos estudos para verificar a viabilidade da construção de um Tramway de serviço, ligando os mananciais d'água potável da Serra da Cantareira, ao ponto mais conveniente desta capital. Para construir essa pequena ferrovia havia sido chamado o engenheiro inglês William Whitmann o qual convocou João Maxwell Rudge e Willian Harding, para ajudá-lo no projeto e construção do tramway. Feito os reconhecimentos indispensáveis, deliberou-se em estabelecer o ponto inicial da linha como a Estação Pari da São Paulo Railway, por ser a essa estação que deveria chegar a maior parte do material destinado ao serviço de canalização d'água. A construção da linha de tramway custou de Rs. 382:611$900 maior parte da ferrovia foi adquirido com a Companhia Hopkins, Causer & Hopkins de Birminghan, Inglaterra. A quantidade de cimento utilizada inviabilizava a aquisição nas casas comerciais da cidade. Neste momento a Superintendência resolveu comprá-lo diretamente dos navios ancorados no Porto de Santos, em barricas de 180 quilos, provenientes de diversos países Em 1893 foi construída no alto da serra, uma caixa de junção captando a água dos córregos Cassununga, Campo Redondo e Engordador. A represa de contenção estava praticamente pronta. Faltava instalar a tubulação da adutora de 60 cm, o governo do estado resolveu então construir a pequena linha férrea provisória do Tramway, com bitola de 60 cm. A linha do Tramway com 13 quilômetros de extensão, previa ligar a estação do Pari da São Paulo Railway, de onde seriam embarcados os pesados tubos de ferro, com destino ao reservatório de acumulação no alto da Serra. Ao final do ano de 1893 o tramway já estava em operação, partindo da Rua Alfredo Pujol ao lado do Quartel, e atingia o alto da serra. Em 9 de novembro de 1894 a linha do Tramway (trilhos) chegou a Estação do Pari da São Paulo Railway, e no mesmo dia deu inicio ao transporte dos materiais para o alto da serra. Para efeitos legais considera-se a data de 09-11-1894, como a inauguração do tramway da Cia. Cantareira. O Tramway lotado de carga partia da Estação do Pari com destino a "Parada Zero" que não era bem uma estação, e sim um posto de fiscalização dos materiais, onde a Companhia Cantareira tinha seu pessoal técnico, e escritorio instalado em um barracão de madeira construído no leito da atual Rua Cantareira, próximo da esquina da Rua João Teodoro. O barracão de madeira foi removida em 1917 por ocasião da construção da Estação Tamanduatei. Fiscalizado e conferido o material na Parada Zero, o trem era liberado para subir a serra com destino a construção. O reabastecimento de água e lenha das locomotivas, e o embarque dos trabalhadores da construção eram efetuados nas estações intermediárias da linha, a saber: Santana, Mandaqui e Tremembé. Portanto na inauguração do Tramway em 09-11-1894 já existiam as estações Parada Zero, Santana, Mandaqui, Tremembe, e Cantareira. Os chefes destas Estações eram: Sr. João Branco de Oliveira (Estação Santana); Sr. Arnaldo Silva (Estação Mandaqui); Sr. Joaquim Silveira (Estação Tremembe), e Sr. Antonio Dos Santos na Estação Cantareira. Em meio aos trabalhos, como o Tramway achava-se um tanto folgado no serviço de transporte de materiais, foi proposto estabelecer trens de recreio em domingos e feriados, devido insistência com que as pessoas reclamavam essa medida. Autorizado o serviço em 23 de setembro de 1895, começaram a correr os trens de recreio. Posteriormente ainda para satisfazer pedidos instantes, foi aberta ao trafego público diário, a linha com dois trens, um pela manhã e outro a tarde. Trata-se pois de uma LINHA FÉRREA DE SERVIÇO que nas horas vagas, para atender a inúmeros pedidos, passou a transportar passageiros, como uma linha de Tramway, ou seja uma FERROVIA URBANA, a qual pode ser considerada como uma linha de BONDES (Por estar atendendo um só municipio). E que no momento em que ultrapassou os limites da cidade de São Paulo, atingindo a cidade de Guarulhos (Trecho Guapira-Guarulhos em 1915 ), passou a ser uma Estrada de ferro. Em Dezembro de 1908 a Lei orçamentária Nº 1160, art. 48. Autorizou o Governo a mandar construir um ramal da Estrada de Ferro da Cantareira, ao bairro do Guapira (Hoje Jaçanã), proximo a divisa das cidades de São Paulo e Conceição de Guarulhos, a finalidade deste ramal era ligar aquela estrada ao Asilo dos Inválidos e ao Hospital dos Morféticos, hoje Hospital São Luiz Gonzaga para tuberculosos. Podemos ver que o Decreto criou sem traço de interesse comercial, sem estudos técnicos ou embasamentos racionais um ramal que foi inaugurado em 15 de novembro de 1910. No fim da linha existia apenas uma estação (Guapira), a casa da Turma, o Asilo dos Inválidos, e em construção o hospital dos Morféticos. Deste modo o Ramal de 8 quilômetros, que embora dotado de boas condições técnicas, era por demais oneroso para servir apenas aos passageiros de um Asilo... Desde a criação do serviço de passageiros do Tramway até 1912, existia em trafego apenas uma classe única, com carros abertos, tipo "Bonde" e com passagens a 200 reís. Em 1913 foi criada a segunda classe para passageiros, e com o abatimento de 50% sobre o preço da primeira classe. Com esta modificação o Tramway entrou no rol das Estradas de Ferro. Em 1 de dezembro de 1913 foi inaugurada a Estação de Tucuruvi, e iniciou o trafego de passageiros. Eis o termo de abertura: "De ordem do Sr. Dr. Teophilo Oswaldo Pereira de Souza, Diretor da Secretaria de Agricultura, Comercio e Obras Públicas, foi nesta data aberta ao trafico público a plataforma coberta, servindo de Agencia, denominada Tucuruvi, no ramal de Guapira, cuja construção autorizada pelo Exmo. Sr. Dr. Paulo de Moraes Barros, secretario de Agricultura, em despacho de 4 de novembro de 1912. A construção foi executada pelo Sr. Dr. Jose Carlos de Almeida Tibagy, engenheiro do Tramway". Incentivar o Tramway ao publico, era idéia do governo para fazer propaganda da pureza da água da serra fornecida a cidade. Para tanto nos dias úteis os trens corriam pela manhã e pela tarde. Nos domingos e feriados partiam quatro trens de recreio com ida e volta. E assim o reservatório da Cantareira passou a ser um excelente passeio dos paulistanos para fazer piqueniques na serra. O tramway foi se consolidando, e passou a transportar cada vês mais cargas e passageiros. Durante o ano de 1908 o Tramway transportou 277 649 passageiros, no ano de 1918 transportou 1 730 941 passageiros. O volume de carga transportado aumentava especialmente pedras de uma jazida particular situada no Mandaqui, e de outras pedreiras pertencentes ao Governo do Estado na serra. Para a retificação do do leito do Rio Tamanduateí, foi efetuado um prolongamento (ramal) ate o Pari, e se utilizou o tramway da Cantareira nestas obras. O trem trazia as pedras da pedreira da Cantareira, para o apedramento das margens retificadas do Rio Tamanduateí. Para melhor atender os passageiros oriundos do centro da cidade de São Paulo, a companhia Cantareira resolveu construir uma estação no aterrado do Gazometro em frente ao antigo Mercado Municipal, esquina das atuais Ruas General Carneiro, e Rua 25 de Março. A Estação passou a ser conhecida como Estação do Mercado, distando 1425 metros da estação Parada Zero. O ramal e a Estação Mercado foram inaugurados em 24 de abril de 1904, Funcionando até 1918, quando a Estação Parada Zero passou então a ser a estação inicial do Tramway da Cantareira. A Estação Parada Zero foi batizada de Estação Tamanduatei, por estar localizada na margem esquerda do Rio Tamanduatei, no cruzamento da Rua Cantareira esquina com Rua João Teodoro, local onde existia o antigo barracão de madeira no meio da Rua. A estação Tamanduateí foi construída e inaugurada em 25 de dezembro de 1918. O nome Rua da Cantareira, se deve ao fato desta ser o antigo leito do ramal Mercado. Desde 1897 existia um ramal de 700 metros (Ramal Jorge Miranda), ligando a Parada Zero a estação Jorge Miranda que ficava a apenas 200 metros da estação da Luz, Atualmente estaria na Av. Tiradentes exatamente entre o Convento da Luz e o Quartel da Rota). E assim ficava mais próximo do centro da cidade de São Paulo, próximo a Estação da Luz. Neste ponto eram descarregados os tijolos que o tramway trazia das olarias de Vila Galvão. AS CRITICAS AO TRAMWAY (Jornal O Estado De São Paulo 31/08/1940) Durante décadas a cidade de São Paulo passou por um intenso desenvolvimento urbano. Daí a grande importância do transporte urbano e suburbano, onde o Tramway da Cantareira em 1941 passou a ser uma nota dissonante, não em razão de sua administração, mas em razão de sua construção sobre uma bitola de 60 centímetros. Tem o Tramway da Cantareira 35 quilômetros de linhas, com o ponto inicial na estação Tamanduateí na rua João Teodoro atrás do Quartel, antes seu ponto de partida era na várzea do Carmo. Na estação do Areal, a linha tronco do tramway se bifurca, com um ramal, indo até Conceição de Guarulhos, e a linha tronco segue até o reservatório da Cantareira. A vida diária dos moradores em todos os bairros da Cantareira, é uma verdadeira odisséia, em conseqüência do sistema de bitola de 60 centímetros. Muitos bairros não tem estradas e não são servidos por ônibus, e seus moradores tem de se sujeitar aos suplícios diários para vir ao centro da cidade e voltar aos seus lares. Para se dirigirem ás suas residências ao saírem do centro, precisam tomar um bonde até Estação Tamanduateí. Onde os trenzinhos partem de hora em hora, quando não de duas em duas horas. Há que esperar muito tempo na estação referida. É preciso a formalidade de comprar passagens e esperar que a estação se abra. Formada a composição e ingressado o passageiro no trenzinho, este parte e vai parando de dez em dez minutos em outras estaçõezinhas. A bitola é estreita e algumas vezes as composições desequilibradas descarrilam para um e outro lado. O excesso de passageiros é notável em determinadas horas, pela acumulação do operariado. As fagulhas das locomotivas inutilizam, diariamente, o traje de passageiros e lhes queima os chapéus. Depois da incomoda viagem chega o passageiro à estação de destino. Desce e na generalidade tem ainda de percorrer, longa distancia para chegar a sua residência, pois que as composições só param nas estações. E deste modo os habitantes que residem em bairros localizados a dez quilômetros do centro da cidade, perdem de uma a duas horas em cada sentido.... Em 1942 o Tramway da Cantareira foi Privatizado sendo adquirido pela Companhia Sorocabana de Estradas de Ferro. Que imediatamente iniciou os estudos para modificar a bitola da linha para 1050 mm. Tambem foram efetuados estudos para prolongar a linha de Guarulhos ate Bom Sucesso e Tome Gonçalves. Mais tarde se pretendeu levar as linhas até Santa Isabel, e ate mesmo se estudou eletrificar a linha. O Ramal de Guarulhos inaugurado em 1912 esteve em operação, até a ultima viagem em 31 de maio de 1965, esta viagem ocorreu entre as estações Tucuruvi e Guarulhos, pois o trecho Guarulhos Cumbica havia sido desativado em 10-11-1964. A ultima viagem foi feita pela locomotiva Nº 3.131 com saida as 20:30 horas. Foi conduzida pelo maquinista Waldomiro Marques Nunes ajudado por Oswaldo Mezalira. O Chefe do Trem foi Jose Lameiro. O Ramal de Guarulhos servia as Estações: Areal, Carandiru, Vila Paulicéia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazei, Jaçanã, Vila Galvão, Torres Tibagy, Gopouva, Vila Augusta, Guarulhos, e Base Aerea de Cumbica (BASP). A linha tronco da Serra da Cantareira esteve em operação de 09-11-1893 ate 10-11-1964, servindo as estações: Tamanduatei, Areal, Santana, Quartel, Mandaqui, Invernada, Tremembé, Parque Modelo, Parada Pinto, Pedra Branca, Horto Florestal, Parada Sete, Parada Viana, Parada Santa e Estação da Cantareira. Observações Importantes: Em 15-06-1964 foi desmontada a ponte ferroviaria do Tramway da Cantareira sobre o Rio Tiete para a construção da ponte Cruzeiro do Sul do Metrô. A Estação inicial do Tramway passou a ser a Estação Areal. Em dezembro de 1964 trafegou o último trem entre as Estações Areal e Parada Inglêsa, em razão de fortes chuvas ocorreu o desmoronamento de um talude, derrubando um trecho de linha na Parada Inglesa. Os trens passaram a sair da Estação Tucuruvi com destino a Guarulhos. a |
O TRAMWAY DA CANTAREIRA |
Pesquisa Werner Vana 02/2010 |