O BONDE A BURRO
Os bondes puxados a burro foram implantados na cidade de São Paulo em 1872, e permaneceram em operação até serem gradativamente substituídos pelos bondes elétricos de 1900 a 1906.
Os bondes a burro foram encarados de diversas maneiras pela população paulistana.
Os primeiros bondes a burro, eram pequenos e modestos, transportam 25 passageiros.
Os condutores e cocheiros (O nome correto é bolieiro, vem de boléia), trajavam vistosos uniformes de gala azul marinho, com reluzentes botões, ou usavam casacas ou fraques com certeza herança dos condutores das carruagens. E os passageiros sempre viajavam  bem trajados, com as damas impecavelmente vestidas, apesar do calor, chuva e poeira que entrava no veiculo que era completamente aberto. A única proteção era uma simples cortina de pano, que se desenrolava entre os balaústres.
No inicio em 1872, o respeito mutuo era muito grande, e utilizar o bonde era coisa de bom gosto. Os passageiros, condutores e cocheiros se conheciam pelo nome. Afinal estavamos em plena "Belle Epoque", a era do romantico.
Existia uma certa cerimonia nas atitudes e posturas, inclusive para se utilizar do bonde.
As pessoas estavam sempre bem vestidas, as cores claras e o branco imperavam.
O regulamento era claro: Era expressamente proibido viajar no bonde sem meias mesmo estando de chinelos ou descalço....
Os animais de tração, normalmente muares, sofriam muito para puxar o veiculo. Eram comandados aos berros e chicotadas, mas só atendiam ao comando de palavras  conhecidas, e tinham de ser chamados por seus nomes. Caso contrario não atendiam.
A jornada de trabalho dos animais começava as 6 horas da manhã e ia até as 9 horas da noite.  Os animais tinham suas peculiaridades e manias. Acostumados ao trabalho diário, só faziam força quando comandados por um condutor conhecido, teimavam e não aceitavam comando de desconhecidos, e não adiantava os chicotes, socos e os murros recebidos. Imagine as dificuldades dos novos condutores contratados (Vide a charge acima). Empacavam no lugar e não se moviam....

Na realidade de burros não tinham nada, eram muito espertos. Quando das colisões sempre pulavam fora da linha, e nunca se machuavam.  Nas rampas e ladeiras íngremes, era sempre atrelado um animal extra para auxiliar na tração. Este animal recebia o nome de "Sota", ficava em seu local aguardando o bonde, e se juntava espontaneamente a este, quando este chegava. Quando terminada a tração extra, descia a ladeira, e ficava novamente aguardando o outro bonde chegar.
Os animais normalmente faziam 4 viagens, e apos isso eram substituídos por animais descansados. O interessante é que concluídas as 4 viagens os animais se recusavam a continuar o trabalho, eram então desatrelados e voltavam sozinhos para as cocheiras, onde recebiam água e ração.
Os animais que aguardavam a saida do ultimo bonde as 21:00 horas, ao ouvir o badalar dos sinos, saiam em disparada para terminar a viagem e irem descansar nas cocheiras.

Humor de 1872 (Piada da época):
Um matuto viaja no bonde e começa a maldizer o veículo, a maldizer o bonde, a maldizer a cidade, a maldizer do povo da cidade, dizendo que na sua terra é que o bonde é bom, os animais são saudaveis,  até  ser interrompido por um passageiro.  
Cavalheiro o senhor esta enganado,  la na sua terra existe uma diferença pois os burros puxam os bondes. mas aqui na cidade é diferente pois algumas vezes alguns burros é que viajam no bonde.

Com o passar do tempo em 1899 as pessoas foram se irritando com o bonde, que foi se deteriorando, e a qualidade dos serviços prestados piorando. Agora as pessoas se queixavam do bonde que achavam lerdo e ineficiente.
O bonde a burro é odiado pela população que não o respeita.

Bonde agora é sinonimo de uma coisa ruim, um "Trambolho(*)"  é uma coisa ineficiente, um transtorno que a todos muito atrapalha, e ninguem quer.....
(*) Junção de:  TRAM (Tramway) + BO (Bonde) + Lho (contração).

Fonte: Livro, Coisas Que o Tempo Levou, de Raimundo de Menezes.