CURIOSIDADES DO BONDE A BURRO
Um bondinho da Cia Viação vinha certa vez, lerdo, escorrendo pelas ruas do centro encharcadas da chuva. Dentro dele sentado, alem de outras pessoas, achava-se um cidadão miúdo, de fraque cinza, chapéu de coco e guarda-chuva aberto (no bonde havia uma goteira) lendo atentamente um calhamaço.
Era - Pasme quem quiser  o Sr. Rui Barbosa, o Grande Rui da Replica.

O APITO
Bondes puxados a burro eram operados por um cocheiro e um condutor. A função do cocheiro era apenas conduzir os animais, ou seja, colocar em marcha, e  parar o bonde.  A função do condutor  era prestar atenção as  pessoas  que na rua davam sinal para tomar o veículo, ou se algum passageiro a bordo do bonde dava o sinal para descer. Momento no qual o condutor soava um longo apito. Sinal de aviso para o cocheiro parar o bonde. Quando os passageiros já haviam descido do bonde, ou subido ao bonde , e se sentado. O Condutor dava outro apito  avisando o cocheiro para por o veículo em marcha.  Cabia ainda ao condutor cobrar a passagem dos passageiros, o condutor efetuava a cobrança começando pelo primeiro banco, vindo pelo estribo

Em Ruas de menor trafego não havia linha dupla, e o bonde parava em um desvio. O Condutor dava um longo assovio (apito), e conforme ouvia ou não outro assovio ao longe, seguia ou esperava pelo outro bonde que vinha em sentido oposto. Nas esquinas em que a linha se bifurcava, a chave era movida com o pé, pelo condutor, que apeava e vinha mover a chave do desvio.

Detalhe os Bondes a burro da Cia. Viação Paulista, eram pintados de Verde.

Para subir ladeiras acrescentava-se à parelha de animais com guizos ao pescoço, mais um burro, o qual era desatrelado quando chegava ao termo.

Conforme a extensão da linha, havia troca dos animais "muda" no meio do percurso, ou na extremidade da linha. Os burros então descansavam matando a sede em baldes e comendo milho nos embornais, até a próxima viagem.

Os  primeiros bondes a burro da Companhia Viação Paulista tinham a sigla CVP pintada nas laterais. O povo dizia que significava 
Cada Vez Pior. Pois de vez em quando um bonde pulava da linha, juntava muita gente para ver o desastre. E dava um trabalhão para manter os animais quietos, e  colocar o bonde novamente nos trilhos. Nos dias de chuva , muitas vezes, os passageiros viam-se na contingência de usar o muque para debaixo do aguaceiro ou do sol inclemente repor nos trilhos os carros encrenqueiros.

Para andar de bondes a burro vinha gente até do interior para conhecer a novidade da civilização. Uma boa excursão,  era tomar o bonde até o Marco da Meia Légua, na estrada da Penha (atual bairro do Belenzinho). O Marco um recanto campestre do interior, com ar puro e muito sossego havia por lá chácaras, numa das quais um alemão pacato e bonachão, o João Boemer. Tinha uma fabrica de cerveja, com um grande e frondoso caramanchão  franqueado á sua freguesia, por sinal bem numerosa.
A cerveja do alemão chamava-se
"Cerveja da Penha" e custava 500 Réis a garrafa, um preço razoável considerando-se que a passagem do bonde custava 200 Réis. Mas não pensem que a cerveja era uma maravilha, era uma garapa azeda como quê ! A turma bebia porque não havia outro jeito. Ou bebia-se Gengibirra (Fermentação de água, gengibre e açúcar mascavo), ou bebiam-se as cervejas importadas de marcas como:  Pa, Viena, Franziskaner,  vendidas na praça por um preço exorbitante 1$500 Réis a garrafa.

CARA DURA o termo caradura, vem dos idos de 1872 o Marques de Três Rios embora tivesse carruagem, gostava de passear de bonde. Era uma figura muito conhecida e estimada. Os moradores da vizinhança de sua chácara ficam a espera do bonde e o tomavam bem perto do ponto em que o Marquês subia. Quando este embarcava, todos tiravam o chapéu  e o cumprimentavam respeitosamente:
"Bom dia senhor Marquês" O nobre paulistano agradecia, todo sorridente, chamava o condutor e pagava a passagem de todos. Assim surgiram os primeiros "caraduras", nesta boa terra de Piratininga.

Naquela época os cocheiros e condutores eram pessoas familiaríssinas e serviçais. Muitos graúdos mandavam um criado ao portão, à espera do bonde. Quando este chegava, o criado dava sinal de parada e avisava o patrão, que vinha correndo, ainda palitando os dentes, beijava a mulher, tomava o bonde e  agradecia ao condutor e demais passageiros. Existiam pessoas que quando o bonde chegava deixavam encomendas para  o condutor entregar a determinada pessoa que  aguardava em outro ponto do trajeto.

  Fontes de Pesquisa:

  2, 3, 5, 6,  São Paulo Naquele Tempo 1885-1915,   Jorge Americano

         4, 8,   São Paulo de Nossos Avos, Raimundo de Menezes

       9, 10,   Belenzinho em 1910, Jacob Penteado

         1, 7,   Gazeta Magazine 4-3-1941

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