O PONTO DE PARADA DOS BONDES E O TRANSITO DE SÃO PAULO A parada dos bondes nas esquinas, antes dos cruzamentos, interrompe e congestiona os veículos - motores. |
Artigo de Paulo Ovídio Revista "TRANSITO 1940" Acervo: Geraldo de Andrade Ribeiro Jr. |
O serviço de bondes elétricos, em São Paulo, começou em 1900. Nesse tempo a Capital
Bandeirante ainda não conhecia automóveis, que somente em 1904 por aqui começaram
a aparecer. O transito era calmo e de ritmo vagaroso, nos princípios deste
século, nesta leal cidade de Anchieta. Para os aristocratas da terra, havia as
caleças reluzentes e os "coupes" acolchoados; aqueles que não podiam sustentar
um cocheiro e uma parelha de raça, tinham a sua disposição, por preço bem razoável,
os serviços dos carros de praça, estacionados no Largo da Sé. Os notívagos encontravam sempre o tílburi amigo, que, sacolejando, salientando sobre as pedras do calçamento, os conduziam ao remanso do lar, depois das farras noturnas. Para o transporte coletivo, havia os vagarosos bondinhos da Viação Paulista, tirados a burros pacientes, e amestrados. Não havia pressa nem confusão, nem atropelos. E a vida toda da cidade seguia a mesma cadência: os paulistanos caminhavam devagar, dentro de suas sobrecasacas solenes e de seus fraques pelintras, demoravan-se a mesa do Castelões, do Progredidor ou do Café Girondino, estacionavam para as longas palestras no Largo do Rosário ou nos Quatro Cantos ou para a embevecida contemplação de damas lindas e espartilhadas. Mal adivinhavam, os paulistanos de então, a formidável energia renovadora que se formava dentro de sua cidade e que irromperia de súbito, em obras, construções, empreendimentos, acelerando-lhe o ritmo da vida e impelindo-a vitoriosamente para o futuro. Aparecimento dos bondes elétricos foi uma das primeiras manifestações dessa energia transformadora que se ignorava a si mesma, ou, pelo menos não conhecia a própria potencialidade. Muita cousa foi feita, então e depois, sem um cálculo, aproximado siquer, do alucinante progresso de São Paulo. Resultado: os atos praticados em 1901, para produzirem efeitos por longo tempo, ao fim de quinze ou vinte anos se tornaram desaptados ás condições novas da cidade. Não agiram, administradores e particulares, com o indispensável sentido de previsão, que lhes deve ser peculiar. Encarecemos um caso particular; justamente acerca dos bondes da Light. Quando se iniciou o serviço em 1900, os bondes elétricos paravam nas esquinas, antes dos cruzamentos, para receber e deixar passageiros. O sinal de ponto de parada era uma larga cinta branca no poste. Naquele tempo de transito reduzido e vagaroso, quando os veículos mais velozes eram justamente os bondes elétricos, quando os carros rodavam ao trote cadenciado dos cavalos e somente em mui raros casos havia um galope insólito e assustador, nesse tempo não era Prejudicial, e talvez até fosse conveniente, a parada regulamentar dos bondes nas esquinas, antes mudaram, porém, de modo geral e completo. |
O transito hoje tem outro caráter. Maior numero de veículos enche as ruas; esses
veículos são, geralmente, mais velozes do que os bondes; o cruzamento das ruas
tornou-se o ponto delicado, onde certas cautelas, para evitar acidentes, devem
ser tornadas; redução de velocidade, conservação rigorosa dos veículos á direita,
sinais convencionais de aviso com o braço e a busina, preferência de passagem
aos veículos que passam pela via principal ou que vem pela direita, etc. Ora, detendo-se os bondes nas esquinas, antes das curvas e cruzamentos, há necessariamente uma paralização da corrente de transito ou, então, o que é peor, constantes imprudências e transgressões ás regras de transito acima enumeradas, por parte dos condutores de automóveis que não querem aguardar a marcha do bonde. Analisemos a situação: se um bonde para nas esquinas, antes dos cruzamentos, numa rua estreita, os outros veículos (automóveis, caminhões, ônibus, carroças, etc) não podem passar pela direita, porque o Regulamento de Transito proíbe a passagem entre o "meio-fio" e o bonde parado para receber ou deixar passageiros; e não podem passar pela esquerda, porque atravessariam contra-a-mão os cruzamentos ou do mesmo irregular modo fariam as curvas, o que igualmente é proibido pelo Regulamento. Resultado: com exceção das ruas onde há "ilhas de segurança", em todas as outras a parada dos bondes, nas esquinas, antes dos cruzamentos, acarreta interrupção da corrente de transito, provoca verdadeira "embrontellage" da rua, e isso repetidamente, as vezes todas que o bonde para. Ora, não é prático, nem é justo, que um veículo só, um bonde único; detenha a marcha de uma dezena de outros veículos, provocando uma solução de continuidade na marcha normal do transito de veículos, demorando os negócios, impelindo os motoristas mais afoitos e impacientes á prática de infrações e imprudências. Qual a solução para o caso? Parece-nos simples: a parada forçada dos bondes no meio dos quarteirões ou logo depois das curvas ou cruzamentos. Assim, achando-se parado o bonde os demais veículos poderão passar a frente pela esquerda, achando-se esta livre, sem que incorram em infrações, pois apenas nas curvas e cruzamentos é proibida, em qualquer caso, a marcha "contra-a-mão". No meio do quarteirão, é tolerada a condução de um veículo pela esquerda, num pequeno percurso, para passar á frente de outro veículo. A rua Barão de Itapeteninga, movimentadíssima, verdadeira artéria de ligação entre o centro da cidade e muitos arrabaldes, oferecia-nos um exemplo frisante da discordância entre o velho costume, de pararem os bondes nas esquinas, antes dos cruzamentos, e as novas condições de transito de veículos na Capital Paulista. Paravam os bondes na rua Barão de Itapeteninga, junto á esquina da Conselheiro Crispiniano. Em conseqüência disso, paravam todos os veículos que vinham atrás do bonde, do lado direito da rua Barão de Itapeteninga. Formava-se uma longa fila de veículos: automóveis e ônibus, uns atraz dos outros, como se estivessem em pleno corso de Carnaval, ás vezes até a Praça da República. Pela esquerda seria impossível, pois na rua Barão de Itapetininga as correntes de transito são contínuas, quase ininterruptas, nas duas direções. E assim ficava "engarrafado" o transito, numa das principais ruas da cidade, atrazando a todos, neurastenizando alguns, provocando frenéticos e infernizantes apelos sonoros de outros, tendo por causa de sua Majestade o bonde que, tal qual um pesado elefante, não perdia o velho hábito de parar junto as esquinas, antes dos cruzamentos. Removeu-se o obstáculo e, como por milagre, o transito hoje movimenta-se rapidamente; retirou-se o coágulo e eis perfeitamente restabelecida a corrente que leva os elementos vitais da economia e da riqueza da cidade. Bastou um simples ato, uma acertada ordem do Snr. Dr. Diretor do Serviço de Transito, para que o problema fosse definitivamente resolvido, harmonizando-se as condições dos bondes, velhos de quarenta anos com as dos outros veículos mais velozes e modernos. |
Um veículo que São Paulo já possuiu: O tardonho e deselegante bondinho da Viação Paulista puxado por burros serviçais, e que ha muito desapareceu das ruas da capital. Aqui o bonde Santana na Rua Voluntarios da Pátria em 1903. |